Por: Gustavo



Eu acabara de acordar, não tinha visto, mas adivinhei sem precisar prestar atenção à televisão ligada qual era o time. Isso porque andava com esse time, e esse jogo na cabeça. Eu e milhões de mim, brasileiros. A Chapecoense éramos nós na final da Sulamericana. Nós a abraçamos, cada um como fosse o próprio time. Quando criança, eu não entendia as cores do uniforme da seleção serem amarelo, na camisa, e azul, no calção; afinal, a cor predominante da nossa bandeira é o verde. Com a Chapecoense jogando essa final, enfim seria sob um verde de uniforme que nos uniríamos. O fenômeno era, já nas vésperas, e seria, quando dos jogos, muito parecido com a nossa torcida pela seleção.


A Chapecoense contou com o privilégio da unanimidade da torcida brasileira – coisa que poucos ou ninguém além da seleção conseguiu – por ser uma pequena figurando entre gigantes. Por exemplo, classificando-se pra essa grande final, em que disputaria um título internacional com o campeão da Libertadores. Ou quando contada junto a Flamengo, Cruzeiro, Santos, São Paulo e – até aqui – Inter, na provocativa lista dos nunca rebaixados.

Além disso, acho que nunca se viu na história do futebol nacional clube mais carismático. Nas redes sociais, as postagens bem humoradas. No trato com a imprensa, a abertura que já não se vê em outros clubes. Na relação com estes, sempre muito cordial. A ‘Chape’ esbanjava simpatia, conquistava até torcedores de outras bandeiras.
Mas ainda acho que há uma razão maior para essa repentina paixão nacional.

Por que nós amamos a Chapecoense? Porque amamos histórias de superação. Amamos histórias de pobres contra ricos, de humildes contra poderosos, amamos ainda mais quando esses heróis inesperados vencem. Nós brasileiros projetamos nesses embates de Davi x Golias as nossas aspirações nacionais. Não quanto ao futebol, nele somos gigantes. Mas nossas aspirações políticas, sociais, humanas. A Chapecoense que chegou pra ficar na série A, a Chapecoense finalista da Sulamericana, a Chapecoense matadora de gigantes somos eu e você na nossa luta diária de fazer da vida um pouco mais do que ela é. E com sorriso no rosto.

Amamos essas histórias. Amamos, por exemplo, novelas, daquelas que, senão nos detalhes, na essência, já começamos a assistir sabendo como terminam. Amamos finais felizes, mesmo os óbvios. Principalmente os óbvios. Isso porque detestamos surpresas, especialmente as trágicas. É assim que esperamos que nossas vidas sejam – felizes, afinal, e sem tragédias. Mas nós só podemos esperar.

 “O sonho acabou”, disse um dirigente do clube. “Nós falávamos em realizar um sonho na despedida no aeroporto, e de repente o sonho acabou”. É impossível para alguém envolvido no sonho sentir-se de outra maneira. Mas eu, de fora, vou me permitir discordar. O sonho era o título, e ele virá, certamente não da maneira esperada. O Atlético Nacional, que seria o adversário na disputa, declarou que abre mão da taça, que em tese seria sua por w.o. Uma homenagem muito bonita e mais que merecida.

Eu espero não parecer insensível falando até aqui apenas de futebol. Lógico que sei: antes de atletas, eram pessoas, com famílias, histórias. Além do pessoal do clube, jornalistas e tripulação trabalhando no voo, que eram, igualmente, mais do que venhamos a saber sobre elas. Eu escolhi falar do acidente sob a perspectiva do futebol porque vejo neste a metáfora da vida e das vidas interrompidas ou marcadas – no caso dos sobreviventes, famílias, amigos – por esta tragédia.

Há jogadores contados entre os melhores que não venceram os maiores campeonatos. Há clubes considerados grandes sem tantas glórias em sua história. Há pessoas que lembradas como gigantes nem tanto pelo que fizeram, muito mais pelo que foram. Se não tiveram tempo de fazer tudo que gostariam, isso importa menos que o sentimento que provocaram em nós enquanto corriam atrás dos seus sonhos. Nossa admiração, nosso amor.



Gustavo Lima
Estudante de Jornalismo
Oficina de Valores

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