Por: Gustavo

Uma vez, conheci um rapaz que tinha aversão a cintos. É, cintos. E sua aversão consistia de mais que apenas não os usar. Ele procurava convencer a todos, com discursos inflamados, de que os cintos eram um mal e ninguém deveria usá-los, a não ser que fosse estritamente necessário. Um dia, quando ele discutia a questão com uma pessoa – não eu, não uso cintos; nada contra, só não gosto – eu o questionei da razão de tanto ranço. Ele, levantando as calças nervosamente, respondeu: “cintos são instrumentos de opressão de pais autoritários e violentos sobre os filhos”. Noutro dia, ele me confessou, às lágrimas, que fora parar muitas vezes no hospital quando criança depois de ser espancado pelos pais com cintos. Perguntei então dos pais, e ele me disse, com o rosto contorcido de amor doído, que os visitava com frequência.


Mudando um pouco de assunto, tenho conhecido, também, um número cada vez maior de meninas e mulheres que dizem não querer engravidar. A razão dada normalmente é o desejo por uma carreira profissional. Se argumento que filhos não impedem isso, ouço que “é fácil para você falar, você é homem”. Mais, ouço que “essa cultura machista quer usar disso pra submeter as mulheres e impedir sua independência”.

Elas têm alguma razão. De fato, é muito mais fácil pro homem. De fato, há machismo em uma cultura que, há um tempo, dizia que as mulheres deveriam só ficar em casa cuidando das crianças – afinal, elas os geravam e pariam – enquanto os homens iriam “trabalhar de verdade” – como se a educação de uma criança não fosse um trabalho tão grande quanto ou maior, e mais nobre. Esse mesmo machismo, quando não pôde mais impedir as mulheres de trabalhar fora, dificultou – e dificulta – o processo dando preferência aos homens na hora de contratar e de pagar, “porque mulher engravida”. Uma cultura dessa, de fato, merece ser combatida. Todos deveríamos lutar para que o mercado de trabalho trate de forma justa homens e mulheres. A crítica do texto será: a que custo?

Primeiro: a maternidade e a paternidade são um dom. Um dom que acaba sendo visto como um peso, um obstáculo, porque num mundo como está o nosso, é difícil ter carreira e família e dar a devida atenção a ambos. Mas, se o modo como o mundo do trabalho se estrutura força uma opção entre o sucesso profissional e a construção de uma família, o correto seria questionar essa estrutura, em vez de escolher uma das opções e tomá-la por bandeira, fazendo guerra à outra.

Segundo: homens e mulheres são diferentes, é lógico, e entrando nesse jogo da vida profissional, nós podemos pensar que a gravidez é um obstáculo exclusivamente feminino. Isso está errado. A gravidez é um privilégio, exclusivamente feminino. É lógico que é um privilégio custoso – e eu nunca saberei o quanto, é verdade. Por isso, é justo que as mulheres gozem, nas relações de trabalho, de privilégios que compensem o custo. Isso é, repito, justo.

Numa sentença acima (vale a pena repeti-la, “Todos deveríamos lutar para que o mercado de trabalho trate de forma justa homens e mulheres”), pensei, a princípio, em usar “igualitária” em vez de “justa”, mas preocupei-me com a exatidão do sentido. Homens e mulheres são diferentes, e isso não é uma questão cultural, é um fato natural. Preocupei-me em falar de justiça porque, na construção da cultura – profissional, no caso – essas diferenças devem ser levadas em consideração. Mulheres engravidam. Aos empregadores digo: aceitem que dói menos.

Mas é importante dizer que, apesar de custar mais à mulher, custa ao homem também. Ou, pelo menos, deve custar. Um homem que não tem a vida afetada pela gestação e pelo nascimento de um filho seu é negligente, e de uma negligência grave: a paternidade é o maior compromisso que se pode assumir, uma vez que se trata da responsabilidade sobre uma vida, além de ser um compromisso também com a mulher.

Um terceiro ponto que gostaria de levantar sobre a gravidez nem tem tanta relação com o trabalho, mas com a sexualidade de maneira mais ampla. Algumas formas de feminismo vão pregar uma renúncia à maternidade como forma de protesto ao machismo – também já criticado neste texto. O mesmo feminismo e outros movimentos afins costumam falar no pudor – comumente com origem na moral religiosa – como uma negação do corpo. Nem quero discutir essa questão, disse isso pra chegar noutro ponto. Como já colocado antes, a capacidade de engravidar como característica exclusiva da feminilidade não é uma imposição cultural, é um fato natural. Portanto, a negação da maternidade é uma negação da feminilidade, uma enorme negação do corpo feminino. Mas esses mesmo grupos, que criticam o que supõe ser uma negação do corpo, ao mesmo tempo opõem-se a algo tão natural e belamente feminino, como a maternidade. A renúncia da maternidade é, na verdade, uma das mais graves negações do corpo e da sexualidade feminina.

É bem verdade que o machismo muitas vezes se serve disso, desse dom feminino, a seu favor. Mas opor-se ao dom da gravidez como forma de opor-se ao machismo é combater o instrumento da agressão em vez do agressor. Com meu amigo cintofóbico, muitas vezes argumentei: “cintos são úteis e, por natureza, não foram feitos pra bater. Se alguém usou assim com você... cara, pelo amor de Deus, levanta essas calças!”

Gustavo Lima
Estudante de Jornalismo
Oficina de Valores

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Esse texto foi escrito por um homem, sim. E que nem é pai. Se você quiser uma opinião de maior propriedade sobre o assunto gravidez, leia os textos da nossa série:

Confissões de Uma Grávida - 1: Ensinar a ser gente
Confissões de Uma Grávida – 2: É egoísmo escolher ter filhos?
Confissões de Uma Grávida - 3: Uma grávida ainda é uma mulher



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