Por: Alessandro


Há uma certeza que carrego comigo há alguns anos e que hoje gostaria de compartilhar: existem muito mais pessoas boas do que más no mundo. Claro que nenhuma pessoa é 100% boa... Mesmo nos melhores encontramos fraquezas de caráter. Mas até aí, com os maus a coisa funciona mais ou menos do mesmo jeito. Mesmo no meio da cafajestagem, vez por outra, são vividos bons valores. Reconheço que em minha vida encontrei pouquíssimas pessoas que cheguem próximo à vilania que vemos nos filmes e nas novelas. Acredito que possa contá-las nos dedos das mãos, talvez nos de uma só.

Pode ser que eu seja privilegiado, mas, sinceramente, creio que não. Convivo em ambientes muito diferentes para que o contato com tantas pessoas boas seja apenas coincidência. Essa experiência, no entanto, faz com que eu constantemente me veja diante de um paradoxo: o mundo como um todo parece bem pior do que os indivíduos que encontro no meu dia a dia. Como pode ser assim se são exatamente estes indivíduos que constituem o mundo? 

Várias são as respostas possíveis para essa questão. A primeira advoga que o todo é maior do que a soma das partes e que para além dos indivíduos estão estruturas ruins, que causam e amplificam males além da esfera individual. Embora exista muita verdade nessa afirmação, afinal todos estamos submetidos a instituições e à cultura, ela não me satisfaz por completo. Parece colocar o mal em algo vago que está completamente além de nossas mãos. Parece dar uma absolvição que não provoca mudança e que incentiva o lavar as mãos. Não! Embora as estruturas tenham peso, são ações com certo grau de liberdade que contribuem para que sejam construídas e mantidas. 

Mesmo reconhecendo que as ações individuais não são tudo e que uma andorinha só não faz verão, sigo acreditando que há poder nas mãos dos indivíduos. Um poder real e que pode ser usado para o bem e para o mal, para manutenção e para mudança, para a vida e para a morte.  E as pessoas boas costumam falhar exatamente ao não usar os poderes que possuem.

Caso conversemos com as pessoas à nossa volta sobre os males do mundo, boa parte delas mostrará tristeza e indignação. Penso que eu e você não sejamos diferentes. Gostaríamos que as coisas fossem de outro modo. Que não houvesse fome, violência e abandono. Que a justiça, a paz e a solidariedade fossem a regra do mundo. Desejamos isso, mas estas coisas não costumam vir sem esforço. Exigem certo sacrifício. E é aí que a situação complica.

Entre desejar o bem e fazer o bem existe uma diferença. O mesmo pode ser dito sobre desprezar o mal e combatê-lo. Bons sentimentos e boas ideias são fundamentais, mas o mundo é transformado quando mente e coração transbordam em nossos pés e mãos, quando intenções tornam-se atitudes.

O mal costuma ser mais fácil por um motivo simples: normalmente ele não exige abnegação, não pede que percamos, apenas que ganhemos. Em suma: é egoísta e promete recompensas imediatas. No mal, o sacrificado não sou eu. Em nome de bens menores, mas meus, sacrifico bens maiores, mas do outro. Em troca do meu supérfluo posso chegar a privar alguém daquilo que lhe é necessário.

No bem há uma outra lógica. Afinal, a justiça é dar a cada um o que lhe é devido, mesmo que isso seja exigente. A solidariedade implica em reconhecer no outro um irmão, mesmo quando isso traz obrigações que podem não ser tão agradáveis. A veracidade tem como consequência combater a mentira que parece vantajosa. E os custos do bem ficam ainda mais altos quando o mal já está posto. É muito mais difícil ser justo diante de uma sociedade injusta, ou ser pacífico em um ambiente belicoso.

Neste ponto julgo enxergar algumas luzes sobre o paradoxo proposto. Há mais pessoas boas do que más. Acontece que os maus costumam ser mais ativos que os bons. Ou, para aceitar mais a complexidade das coisas: costumamos ser mais ativos no mal do que no bem. Vivemos uma bondade preguiçosa, pouco disposta aos sacrifícios da coerência e ao heroísmo da generosidade. Desejamos o bem, mas não estamos dispostos aos custos do bem.

Acredito que a sensação de muitos os me acompanharam até aqui seja: a coisa é mais complicada que isso. E eu concordo totalmente. Há simplismo em minha abordagem... O mal não é resolvido com uma equação e é algo que se assemelha mais a um mistério do que a um enigma. No entanto, entender um pouco de como é sua presença em nós e assim combate-lo com mais afinco é algo fundamental. Afinal, não fazer nada é uma das piores coisas que podemos fazer.

Claro que nem todos seremos grandes reformadores ou líderes, mas o princípio pode e deve ser aplicado às nossas microrrelações. Para que nossas famílias, vizinhanças, ambientes de trabalho, grupos de amigos sejam melhores do que são, é fundamental que cessemos de apenas desejar e comecemos a pagar os custos do realizar. Só começando no micro podemos dar passos para o macro, afinal, grandes mudanças costumam ser fermentadas em pequenos ambientes.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Oficina de Valores

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