Por: Alessandro

La La Land é um filme que todos já vimos, mas que faz muito tempo que não vemos. E essa é a razão do sucesso que vem fazendo. Vê-lo é como reencontrar lembranças guardadas em uma gaveta, como cruzar com o melhor amigo dos tempos de colégio que não vemos desde a formatura, como comer a comida da avó que há muito não visitávamos. Enfim, parece que encontramos algo que já fez parte do nosso dia a dia e que sentimos uma falta danada, mas no qual costumamos pensar pouco. Tendo em vista apenas o cinema, podemos dizer que houve um tempo em que esse musical talvez fosse apenas mais um, mas hoje é uma brisa de ingenuidade em um mar de cinismo.

Do ponto de vista técnico, La La Land é muito bem executado. Boa fotografia, belo figurino, canções lindas e atuações legais. Mas não é simplesmente o preciosismo da execução que torna a experiência de assistir o filme tão boa. O que traz sorrisos e lágrimas é o fato de todo esse aparato técnico estar a serviço de uma história simples e lotada de valores que constantemente esquecemos, mas com os quais não conseguimos deixar de sonhar.

La La Land começa falando de sonhos. Da busca dos sonhos e das dificuldades em alcança-los.  Começa contando a história da menina que cresceu apaixonada pelo cinema, que conheceu através de uma tia e de uma coleção de filmes antigos disponível na biblioteca que ficava em frente à sua casa. Essa moça em busca de viver aquilo que a encanta larga a faculdade e faz audição atrás de audição tentando firmar-se como atriz. Nessas suas sucessivas tentativas, sempre é desprezada e ignorada por aqueles que a avaliam.

Temos também a história do rapaz que ama jazz e que julga que o mesmo está morrendo. Que é saudosista de um passado que vê constantemente ir embora e que deseja ver ressuscitado. Esse rapaz está falido e para sustentar-se toca músicas que detesta em bares e em festas. Seu grande desejo de salvar a música contrasta com as dívidas que se acumulam e com a falta de um emprego fixo.

Os dois sonhadores encontram-se e seus sonhos e frustrações os aproximam. O amor progressivamente surge e é vivido em um cotidiano que a partir do encontro dos dois tornou-se encantado. Esse encanto é revelado em pequenos detalhes durante todo o filme e chega ao ápice quando os dois literalmente dançam nas estrelas.

O amor romântico de que La La Land fala é o amor que nossos pais cresceram admirando e sonhando. Um amor que transfigura a existência e que revela o extraordinário escondido naquilo que é mais comum. É o amor do qual muitos cansam de falar mal, mas que, quando nos arrebata, traz um sorriso e uma alegria inigualáveis. Ao assistir esse musical fica difícil não se lembrar da famosa lição de Chesterton: o primeiro dever de um homem apaixonado é comportar-se como um idiota.

A idiotice da qual fala Chesterton, e que La La Land tão bem elogia, é aquela que faz com que os mais comuns dos homens e as mais comuns das mulheres tornem-se príncipes e princesas, que leva uma existência aparentemente cinza a ser transmutada em um emocionante conto de fadas. Essa idiotice faz quem está fora rir dos que a vivem e considerá-los bregas. Por outro lado, faz quem está dentro gargalhar por achar fantástica a aventura que está vivendo. Essa é a experiência que faz com que compreendamos (ainda que não ao modo do autor) aquela famosa frase de Nietzsche: "Aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música".

E são exatamente a música e a dança os recursos que La La Land utiliza para mostrar o extraordinário escondido no ordinário. Se esse filme não fosse um musical dificilmente ele seria bom. Na verdade, dificilmente ele seria alguma coisa. O cantar e o bailar são o transbordar do sentir. É por isso que Mia e Sebastian cantam e dançam para traduzirem as expectativas quanto ao futuro, a celebração do presente, a memória do passado e a nostalgia do que poderia ter sido.

Há aqueles que frequentemente criticam os musicais por julgarem que são pouco realistas, que incomoda ver alguém cantando para avisar que vai a cozinha ou que vai escovar os dentes. Respeito tais posições, mas penso exatamente o contrário. É justamente o cantarolar incessante que faz com que os musicais sejam realistas. Não porque mostram exatamente aquilo que fazemos, mas porque apontam o que gostaríamos de fazer. Embora nosso “normal” seja o falar, penso que todos sentimos que a música expressa de forma mais intensa o que está dentro de nós. Se não andamos cantando à luz do Sol e dançando na chuva é mais por dificuldades artísticas que por falta de desejo.

O cotidiano é exatamente o local do cantar. Quem nunca fez um show ao tomar banho ou usou uma vassoura como microfone que atire a primeira pedra. A música parece fazer com que atravessemos algumas barreiras que a fala cotidiana não consegue transpor. Ao fazer isso mostra que o extraordinário está presente e que não vivemos distantes de um reino encantado. E isso não vale apenas para os momentos felizes. Sim, cantar é próprio dos apaixonados. Sim, a música funciona como um transbordar da alegria. Mas ela não é entoada apenas em casamentos e festas de aniversários. Há canções para dor de cotovelo, para a angústia e também para o luto.

La La Land é um romance. Um simples, bonito e comum romance. Isso, no entanto, não faz com que fique só na celebração de um relacionamento. Embora mostre a grandeza do amor entre um homem e uma mulher, não se nega a assinalar os limites em que a concretização desse mesmo amor é vivida. O lugar do amor é o dia-a-dia e ele é vivido entre pessoas imperfeitas. É nesta imperfeição que o sublime é experimentado e por causa desta imperfeição que as coisas não saem sempre como sonhadas, embora possam dar certo mesmo assim.

Um dos muitos méritos do filme é mostrar que há várias possibilidades de finais felizes e que quando o amor foi realmente vivido, mesmo que a separação leve cada um para caminhos distintos, o impacto de um no outro permanece e o bem que levou cada um a ser melhor do que era não morre.

O amor é o grande tema desse filme que concorre a quatorze Oscars. Engana-se, contudo, quem julga que o amor romântico é o único sobre o qual La La Land versa. Ele fala também sobre um outro amor também bastante profundo e nobre. O amor a um ideal que é maior que a própria pessoa. Um amor que não se concretiza no mero sucesso da carreira, mas no doar-se a algo considerado valioso.

Nessa celebração a estes dois grandes amores, La La Land pretende ser uma homenagem. E não apenas aos grandes musicais do passado, aos quais a todo o momento faz referência. La La Land presta homenagem a algo muito maior. O musical homenageia a todos os que na aventura desta vida insistem em sonhar, aos que desejam “converter a prosa cotidiana em verso heroico”. A estes tolos incorrigíveis o filme propõe um brinde. E são estes tolos, estes extremamente necessários tolos, os que ficam felizes ao assisti-lo.  Pelo enorme sucesso que o longa-metragem tem feito mundo afora, parece que, felizmente, essa inestimável tolice ainda contagia uma multidão.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores

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