Por: Rodrigo

Pense em um lugar que não está no mapa, não é encontrado nem no Google Maps e nem no Google Earth. Um lugar que não tenha internet, nem energia elétrica e sequer um sinal estável de telefone. Um lugar onde o dinheiro é supérfluo, pois o alimento vem da natureza, transporte público é desnecessário, afinal todos fazem tudo a pé. A rede social mais difundida é o bate papo com os vizinhos, o esporte mais praticado é a natação, “o povo lá já nasce peixe”, na segunda posição há um empate entre o futebol de rua e o vôlei descalço no campão de terra.


Neste lugar o conhecimento passa de geração em geração e todo mundo sabe fazer tudo. Uma simples palha vira parede, telhado, apito, relógio, placa, pulseira, colar e cartaz. Mais do que “saudando a mandioca”, o povo vive se alimentando dela, que também como num passe de mágica vira bolo, pudim, tapioca, polvilho, tacacá e tantas outras iguarias que é até difícil imaginar.

O sol nasce mais cedo e se põe mais tarde, todo dia é superlua e no rio é sempre Black Friday (peixes com 100% de desconto). O trânsito não é problema, o estresse tampouco. Nenhum pai deixa de lado a família por ser consumido pelo ritmo de trabalho do capitalismo selvagem e não faltam crianças brincando nas ruas. Isentas da distração dos smartphones e livres do risco de serem assaltadas as pessoas vivem com leveza.

Este lugar não sofre as mazelas da globalização, pois parece estar em outra época. Adentrar essas terras é como fazer uma viagem no tempo, um tempo em que nostalgicamente a nossa “civilização” saboreia nas memórias do passado sem nem imaginar que existe no presente. “Debaixo dessa mata tem gente”, argumenta uma líder comunitária da região. Esta frase carrega uma grande verdade, pois nessa “mata” tem gente e gente que nos devolve pra gente. 


Se não fossem os fatos, as testemunhas oculares e as memórias tão vivas dificilmente poderiam convencer-me de que não foi um sonho. Na verdade é um sonho, mas um sonho real daqueles que abalam toda a estrutura emocional.

“Sonhando” neste lugar constatei que na Amazônia respira sim o pulmão do mundo, mas respira também o pulmão do Mateus, da Renata, Ester, Tainá, Jander, Taiane, Jacob, Jaíne, Kaleb, Aldair, Odila, Glaciane, Natanael, Afonso, Cristian, Everaldo, Eliane, ufa! Como respira essa terra e como me fez respirar. Um oxigênio para a alma, assim defino esse lugar chamado Anã.


Isaac Newton diz ter se apoiado nos ombros de gigantes para enxergar mais longe. Eu precisei me apoiar nos ombros de “Anã” para olhar pra dentro.

Saio de Anã diferente da forma como entrei, ainda mais convencido de que a vida nos pede mais e que, para quem caminha na direção errada, o maior progresso é dar meia volta e andar para trás. O avião mal me trouxe de volta ao Rio de Janeiro e o coração já me pede para voltar.

Talvez Anã não esteja no mapa, porque não é um mero local. Talvez seja um modo de vida, uma retomada de consciência para o essencial que preciso levar aonde quer que eu vá.

 



Rodrigo Moco
Psicólogo
Oficina de Valores

1 comentários:

Marcos Liotti disse...

Somos cada vez mais, os que querem andar para trás e viver desta forma natural, intensa, simples e completa... ;)

Postar um comentário