Por: Diego

“Com todo o respeito, preciso lhe falar uma coisa...”. Esta é uma frase capaz de gerar muita ansiedade, dessas instantâneas, naquele que acaba de ouvi-la, seja dita num tom sereno ou no calor de uma revolta (e, nesse caso, o “com todo o respeito” vira apenas um acessório linguístico). Isso porque as palavras que a seguem quase sempre tratam de alguma correção, crítica ou repreensão. O que não deveria ser nenhuma surpresa, pois como seres humanos somos passíveis de falhas. Com frequência conseguimos ver claramente as nossas faltas, às vezes poucos segundos depois, mas não são raras as ocasiões em que precisamos que alguém nos alerte (ou que nos faça assumir) aquilo que fizemos de errado. Mas essa atitude não é fácil e exige uma virtude muito valiosa e mal interpretada hoje em dia, que é a sinceridade. Sinceridade tanto para quem fala, quanto para quem ouve. Pensemos neste segundo caso.

Reconhecer o próprio erro é o primeiro passo para poder corrigi-lo. E por mais que isso pareça obvio, numa sociedade com muitos ares competitivos podemos ver essa sinceridade consigo próprio como uma fraqueza. É claro que há um limite: uma pessoa que supervalorize os próprios defeitos não será de muita serventia para nada, enquanto alguém que viva falando deles será apenas um pessimista ou um chato sentimental. Mas todos nos sentimos mais à vontade, seja num relacionamento profissional ou afetivo, com alguém que sabe reconhecer os próprios defeitos. Primeiro porque reconhecer os erros, assim como os acertos, é um gesto de humildade, desses que tornam possível (e até mesmo agradável) a convivência. Depois, apenas alguém que não se veja como perfeito é capaz de amadurecer, corrigindo desvios de personalidade ou melhorando como profissional.

Lembro de uma dinâmica de grupo num processo seletivo de estágio de que participei há alguns anos em que tivemos uma “entrevista coletiva”. A psicóloga do RH fazia uma pergunta que deveríamos responder na hora, diante de uns 10 outros candidatos. E pediu o seguinte a uma menina: “Fale de uma situação em que você viu que estava equivocada e precisou se corrigir”. Não me recordo dos detalhes da resposta, mas lembro que ela contou um caso de um estágio onde ela cometeu um erro, mas sua parcela de culpa era mínima. A psicóloga instigava-a para saber no que ela havia errado, e a menina apenas ressaltava sua isenção. Na saída, enquanto caminhávamos um grupo em direção ao metrô e comentávamos a dinâmica, a menina disse “fiquei muito nervosa, parecia que o desejo dela era me ver assumindo a culpa”. Pensei em silêncio, porque acabara de conhecer a menina: mas era exatamente isso que a psicóloga queria!

Sobre a sinceridade no falar, podemos esclarecer dois equívocos comuns na hora de sermos sinceros com alguém:

Nem tudo é óbvio e, acredite, isso para alguns é uma surpresa. Cada um tem uma forma particular e subjetiva de entender o mundo e enxergar as próprias ações, proveniente de diferentes influências e experiências de vida. O óbvio é aquilo que não exige demonstrações, e se tratando de seres humanos, quase sempre existirão diferentes pontos de vista. Precisamos nos ajudar uns aos outros a reconhecer nossas falhas. Lembro de uma jovem que, se estivesse irritada e alguém perguntasse o porquê, dava a seguinte resposta: “se você não percebeu, não sou eu que vou falar”. Perdia a oportunidade de partilhar e ainda criava um clima de tensão. O silêncio, que pode ser um recurso útil em certos casos para manter a cabeça no lugar, em outros pode manifestar um grande orgulho.

O outro equívoco é que ser sincero não significa ser mal-educado ou mesmo impulsivo. Não devemos nos omitir de falar algo que seja necessário por medo de magoar, lembrando aquela simpática frase de para-choque de caminhão “A vida é dura pra quem é mole”. Sem ficar dando voltas ou floreando demais, basta ter um pouco de tato e sensibilidade. Se precisamos arrancar um espinho e vai doer de qualquer jeito, podemos pelo menos fazê-lo com cuidado e preparando um curativo logo a seguir. Não é bom fazer uma correção com a cabeça quente, com o risco de se exagerar e até mesmo perder o efeito. E sempre que possível, fazê-la como crítica construtiva, apontando caminhos e estando disponível para ajudar a melhorar.

Por fim, vale mencionar que um dos primeiros sentidos da palavra sincero é “puro, que não tem mistura, de boa qualidade”. Tal como a água, só se pode ver por dentro de alguém que seja transparente. A insinceridade contamina e, com o tempo, é capaz de tornar desagradável qualquer ambiente. Não à toa, falta de diálogo e sinceridade é uma das maiores causas de fracasso nas relações humanas, porque impede um dos fatores mais importantes para que haja confiança: a abertura e doação de um pouco de si mesmo. E com todo o respeito, boa parte dos meus e dos seus problemas podem vir dessa falta de sinceridade no falar e no ouvir. Já passou da hora de começar uma mudança.


Diego Gonzalez
Mestrando em Engenharia Biomédica
Oficina de Valores

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