Por:Gustavo
Imagem de pixabay.com


Um antigo adágio carioca é a melhor expressão de que consigo me lembrar para o feed de notícias do meu Facebook: “Lado A, lado B, a porrada vai comer”. Algumas pessoas preferem falar em polarização – mas eu não consigo usar essa palavra sem pensar em polo norte, polo sul, gelo, frio – detesto! Voltando ao assunto: esquerda, direita; progressistas, conservadores; raiz, nutella; futebol, esportes sem graça (minha opinião é clara sobre o assunto); e, recentemente, carnaval e não-carnaval.

Há quem goste da folia, dos blocos, desfiles, bailes. Há quem prefira a tranquilidade de uma combinação sofá-cobertor-netflix, ou uma viagem para algum lugar tranquilo, isolado. Uma questão de gosto, claro, e não há mal em preferir uma coisa ou outra. É claro que o gosto não pode ser usado como critério absoluto e mesmo naquilo que gostamos podem existir coisas não tão boas e posturas que não estão certas. Isso com certeza pode ser dito do carnaval. Por outro lado, podemos reconhecer que há coisas interessantes naquilo que não gostamos. Alegria, convivência, riso, de forma sadia. E isso também pode ser dito do carnaval. O problema é que as pessoas têm uma dificuldade enorme de entender o que é uma “questão de gosto”.

Há questões, é verdade, em que realmente há uma opinião mais acertada. Por exemplo, no que diz respeito à política, certamente há um posicionamento melhor que os outros (e se não há unanimidade é porque ninguém conseguiu ainda provar por A + B que é o seu, e dificilmente o farão). Para a religião, vale o mesmo – é impossível que todo mundo esteja certo se há afirmações incompatíveis sobre as mesmas questões. Mas há outros assuntos em que não existe melhor ou pior, certo ou errado, cada um vai com o que prefere. Isso é tão claro que é bobo explicar. Mas um pequeno passeio pelas redes sociais mostra que ainda é necessário.

Se fossem ocorrências isoladas, poderia dizer-se que é apenas maluquice. Mas quando você vê TODO MUNDO discutindo por questões de gosto, você se questiona que razão as pessoas têm para fazer isso. Eu consigo ver algumas:

TODO MUNDO QUER GANHAR – quando mesmo o mais inteligente dos seres humanos se envolve em discussões toscas, você percebe que não é uma questão de capacidade intelectual, mas de falta de virtude. Ninguém admite estar por baixo, todo mundo quer ter razão, todo mundo quer estar do lado certo e quando não há lado certo, é preciso fazer parecer que o meu lado é o certo. “Se você acha carnaval ruim, é porque você é chato”; “Se você gosta de carnaval, é porque é uma pessoa vazia”. No fundo, essas afirmações nos levam a segunda razão: o medo de que o outro esteja certo.

INSEGURANÇA – um bordão da psicologia popular diz que, quando uma pessoa tenta demais se afirmar é porque no fundo ela se sente insegura quanto ao que é. No nosso exemplo carnavalesco, os defensores da festa podem ter medo de que a folia seja realmente uma fuga de uma vida vazia e precisam – para não dar o braço a torcer – afirmar que ela é expressão de uma alegria, que não é real. Do outro lado, os opositores da data podem apenas querer fazer passar uma melancolia e um desânimo da vida por um falso espírito de recolhimento e tranquilidade. Isso parece, mas não é de todo, a terceira razão: a vida de aparências nas redes sociais.

PARECER MAIS QUE SER – “As redes sócias trouxeram à tona a superficialidade do homem”. Entre a nossa espécie, sempre houve a tentação de uma vida de aparências que não corresponde ao interior, tentação a que quase todos cedem em algum grau. Mas a internet e sua virtualidade puseram nas nossas mãos a ferramenta mais eficiente para maquiar a vida.

Uma música de que gosto muito conta a história de um cara que sofre por usar óculos e, em dado verso, ele diz “Era mais fácil se eu tentasse fazer charme de intelectual”. É o que acontece nos facebooks, instagrams e snapchats da vida. As pessoas escolhem um “charme” que seja possível sustentar dadas as histórias verdadeiras das suas vidas e procuram fazê-lo a todo custo: se eu sou o baladeiro, toma-lhe carnaval até o coma alcóolico; se eu sou o caseiro, dá-lhe Netflix até fritar o cérebro.

E pra “sustentar o charme”, é preciso vestir o estereótipo sem tirar nunca pra lavar. Um maniqueísmo assim, tão louco, como se eu não pudesse gostar de duas coisas diferentes: festa quando é tempo de festa, tranquilidade quando é tempo de tranquilidade; como se eu não pudesse curtir bloco num ano, e um sítio ou um retiro no outro. Não dá pra ser os dois quando se quer vestir um rótulo, realmente.

Em todo o texto, quis passar a mensagem de um respeito ao gosto do outro. Mas é lógico que isso não significa que toda crítica seja injusta. Às vezes, o gosto excessivo pela festa é realmente sinal de uma fuga de uma vida vazia. Tantas vezes, a recusa à festa é mesmo sinal de uma melancolia conformada diante da vida. O maior sinal de que uma dessas situações é o que se passa com alguém do seu convívio (ou do seu feed ­– nunca confundir as duas coisas!) é o exagero. Não vale tudo para se divertir, e não vale recusar toda diversão em nome de convicções que na verdade nem são incompatíveis com ela. Todo mundo sabe do que gosta. Se conhecemos também aquilo que nos realiza, é então que fazemos a opção por aquilo que agrada a todos os gostos: felicidade.


Gustavo Cardoso Lima
Estudante de Jornalismo

0 comentários:

Postar um comentário