Por: Rodrigo
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Tudo começou com um convite inusitado e uma atitude inesperada.

Eu, vascaíno de nascença e por escolha (após Libertadores de 98 como explico neste texto), recebi de um amigo flamenguista uma proposta indecente: vamos ao Flamengo x São Lourenço no Maracanã?

O “não” era a resposta mais óbvia, afinal de contas sou vascaíno e não é habitual frequentar estádios nos jogos do rival, na torcida do rival. Enfim, não preciso detalhar que um vascaíno obviamente diria não. Contudo, fui além e pensei nos motivos para dizer sim: o primeiro deles é que o amigo em questão está prestes a passar um período no exterior e seria uma espécie de despedida dele. O segundo é que, além disso, um grupo considerável de amigos iria ao jogo. O terceiro é que sou amante do futebol e seria a reabertura do Maracanã após um longo período inativo. Por que não ir? Fui.

O dia foi cercado de tensão, sabia que seria alvo de zoeiras infindáveis nas redes sociais, sabia que os amigos vascaínos ficariam perplexos e não veriam o menor sentido no que eu estava fazendo. Tive medo de cometer alguma gafe no estádio, como comemorar gol do adversário, ficar comentando algo que me revelasse como “infiltrado” em voz alta e me descobrissem. Minha estratégia foi: camisa vermelha e preta, experiência antropológica, vou agir como um deles. E assim foi, eu pulava, dublava a maioria dos cantos porque não os conhecia, alguns poucos eu até cantava junto, só o hino que realmente me recusava, mas fazia o gestual e ia na onda.

O jogo foi bem bacana! Primeiro tempo morno sem grandes alternativas para os dois lados, torcida compareceu em peso, mas não me surpreendeu na primeira etapa. Uma das perguntas que mais ouvi foi: o contato com a torcida não te balançou? Respondo com sinceridade: não. Elenco aqui os fatores que me levaram a essa conclusão: o primeiro é que na chegada ao estádio, estávamos com um grupo de amigos, alguns se atrasaram e precisavam que os esperássemos para que trocassem o voucher pelos ingressos. Faltava ainda uma hora e meia para o jogo e o grupo que já estava, de forma inquieta, insistia em entrar no estádio. Um se dispôs a esperar os amigos e eu naturalmente queria lhe fazer companhia. Mas de forma ansiosa os outros insistiam em entrar (visto que tínhamos o ingresso em mãos, estávamos na porta do estádio e havia uma antecedência considerável para o início da partida), o que não me pareceu uma atitude de “nação” como se auto intitula a torcida rubro negra. O segundo é que realmente esperava mais explosão nos cantos e nos gritos da torcida, realmente não me surpreendeu e nem arrepiou, inclusive a minha interpretação de animação fazia de mim o mais animado do meu grupo.

O segundo tempo do jogo começou com um belo gol de falta do Diego, comemoração, festa. Parece que aí sim a torcida chegou, meus amigos se animavam mais a cada gol, era notório que viviam um momento histórico. Vencer por 4x0 um jogo de Libertadores, não é todo dia que vai acontecer. No início torcia por um vexame do flamengo em pleno Maraca, mas a essa altura admito que me alegrava com a alegria de meus amigos. A rivalidade não nos pode cegar e tive a oportunidade de fazer parte da alegria deles, de ver os efeitos que o futebol provoca de outra maneira.

O detalhe é que em meio a um gol e outro, fotos e vídeos rolavam soltos. Eu sabia que estava exposto e não foi diferente. Desde que o jogo acabou sou o principal assunto no meu contexto de amizade, minha presença no estádio até ofuscou o grande resultado do flamengo para a maioria. Minha TL no Facebook se divide entre: “Moco virou a casaca” do lado dos flamenguistas e “Que vergonha Moco” por parte de todas as outras torcidas.

Confesso que vendo a repercussão, ora achava engraçado, ora me arrependia. Tanto mexeu comigo que me pus a pensar: por que isso afeta tanta gente? É claro que a brincadeira é válida: ela faz parte do futebol e principalmente da amizade. Mas por que alguns levam tão a sério? Pode parecer exagero, mas amigos que eu não tinha contato há anos apareceram para comentar o ocorrido. Penso que realmente há valores em jogo, passamos por um período tão cercado de intolerância e acho que as pequenas atitudes que nos aproximam ao invés de segregar são fundamentais. Flamengo e Vasco uniram-se recentemente na campanha #paznofutebol. Acredito nisso, que rivalidade não é sinônimo de inimizade e, analisando tudo, não tenho dúvidas de que foi bom ter ido.

Fiz uma escolha corajosa e com essa escolha descobri um novo amor! Pelo Flamengo? Não, mas pelo futebol, pois o esporte é viciante, é apaixonante e quebra barreiras, aproxima as pessoas quando saímos dos nossos bairrismos, e eu saí! Fui da colina pra favela, pra perceber que o meu lugar é a colina. Fui ouvir a nação cantar, pra sentir arrepios, não pelo que ela me provocou, mas por ouvir amigos flamenguistas comentando lá mesmo durante o jogo que, numa eliminação que o Flamengo sofreu para o Vasco, a torcida cruzmaltina mesmo em minoria parecia fazer tremer a arquibancada, enquanto a do flamengo fazia um silêncio sepulcral. Eu olhava para a massa e imaginava o silêncio, olhava para as cadeiras recém-reformadas do Maraca e sentia saudade do cimento de São Januário. Se virei casaca? Sim, sem dúvidas! Não no sentido de mudar de time, mas de me reconhecer da turma da fuzarca*!

Saio dessa experiência mais vascaíno do que nunca, mais próximo dos meus amigos, podendo rever (ainda que seja pelas redes sociais) amigos que não apareciam há muito tempo, e isso porque saí da minha zona de conforto. O mais fantástico é perceber que essa é só a minha percepção e os amigos flamenguistas saíram arrepiados, achando que foi a festa mais linda que já viram. Todo ponto de vista é a vista de um ponto, podemos até não enxergar da mesma forma, mas respeitar a forma que o outro vê é fundamental. Vamos ousar, nos interessar pelos interesses do outro, transcender as nossas vontades, sem medo de nos perdermos. Só perdemos aquilo que na verdade nunca possuímos. Virei casaca! Descobri um novo amor! Viva o futebol!

*Casaca, casaca, casaca! A turma é boa, é mesmo da fuzarca! Vasco! Vasco! Vasco! Trata-se de um tradicional grito da torcida vascaína. 



Rodrigo Moco
Psicólogo
Oficina de Valores

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