Por: Alessandro

Eu estive lá. Presenciei os acontecimentos enquanto foram se desenrolando. Não entendia muito bem. Um tumulto durante a festa, aquelas coisas sempre aconteciam. Dessa vez, deixei-me levar pela curiosidade e acompanhei a multidão. Estávamos diante do palácio do governador e parecia que ele não queria condenar um homem que se dizia profeta. O povo gritava e pedia crucifixão. “Deve ter deixado gente muito poderosa com raiva” – pensei eu.

Resolvi perguntar a alguém o que estava acontecendo, quem era aquele moço que parecia já ter sido muito surrado. Perto de mim, vi um jovenzinho acompanhado de uma senhora que pensei ser sua mãe. Eles estavam visivelmente muito comovidos. Deviam saber o que estava acontecendo. Perguntei a eles: “Quem é o rapaz que está sendo julgado?”. A surpresa em seus olhos me desconcertou. O rapaz respondeu misteriosamente, quase gaguejando: “A Luz! A Luz veio ao mundo e os homens estão preferindo as trevas. Ele é a Luz e o Amor.” A senhora, com olhos de uma profundidade que eu nunca havia visto antes, disse simplesmente: “É meu filho”.  Logo os dois perderam-se na multidão.

O rapaz devia ser mais um fanático seguidor de um rabi que prometia restaurar Israel. Era no mínimo estranho ouvir um homem sendo chamado de luz e amor. Apesar de julgá-lo um louco, fiquei intrigado com suas palavras. E mais ainda com o olhar da senhora. Tomei então uma decisão: tentaria acompanhar o mais de perto possível os últimos passos daquele condenado. Alguém que despertava reações como as daquele rapaz, e que havia sido educado por uma mãe como aquela, deveria ser, no mínimo, interessante.

Embrenhei-me em meio aquelas pessoas e consegui chegar perto o suficiente para ouvir a condenação. Na verdade, vi o governador lavar as mãos e condenar à morte alguém que ele julgava inocente. Aquele homem foi literalmente condenado pelo grito de uma multidão raivosa que parecia não saber direito do que o acusava. Reparei que homens de posição mais respeitável, inclusive alguns sacerdotes, incentivaram o pedido pela crucifixão.

O homem que era chamado de luz e amor colocou a cruz nos ombros. Um pedaço de madeira colocado na horizontal e que parecia muito pesado. Começou a caminhar e em torno havia alguns gritos eufóricos de zombaria. Olhando para seu rosto era difícil imaginar o que tinha feito para gerar tanto ódio. Sob o peso do madeiro, o homem tombou. Caiu de rosto por terra. E logo após o tombo teve seu caminho atravessado por aquela senhora. Não sei dizer muito bem o que senti, mas aquele encontro entre Mãe e Filho, até então desconhecidos para mim, mexeu comigo de tal forma que não consegui conter um choro amargurado. Ali acontecia alguma coisa que ia para além da injustiça que eu testemunhava.

Percebi que o homem não conseguiria carregar mais a cruz e, até hoje não sei o motivo, resolvi ajudá-lo. Antes que conseguisse chegar perto, um outro, que pelas roupas e sotaque parecia vir de Cirene, tomou a cruz e a carregou por um bom trecho. Nunca antes e nunca depois senti tanta inveja de outro homem. Eu queria ter estado no lugar dele e aliviado aquele peso. Por culpa de instantes não fui eu. De todo modo, logo os soldados devolveram a cruz ao condenado, que cairia mais duas vezes antes de chegar ao local de sua morte. Em meio ao caminho, ainda foi ajudado por uma mulher que teve a delicadeza de enfrentar os soldados para conseguir enxugar aquele rosto. O condenado à morte dirigiu ainda umas palavras enigmáticas a umas mulheres que o acompanhavam chorando.

Chegando ao local da caveira, despiram suas roupas. Percebi que os soldados tiraram a sorte para ver quem ficaria com sua túnica. Nu, aquele homem foi preso a marteladas no madeiro que ele mesmo carregou. Próximo a ele foram crucificados dois outros homens. Um riu dele, mas o outro dirigiu-se a ele com um olhar que lembrou o do rapaz que eu havia encontrado mais cedo; tratou o condenado como um rei e um profeta. Chorando, pediu que não esquecesse dele quando entrasse no seu Reino. E o mais incrível foi a resposta: aquele homem ferido e derrotado falou em tom ao mesmo tempo régio e próximo dando garantias ao agonizante que naquele mesmo dia ele estaria no paraíso.

As palavras daquele crucificado tinham tal força que era impossível não dar atenção a elas. Ele falava com uma autoridade que eu não conhecia. Não parecia com os doutores da lei, também não parecia um líder rebelde. Diante do fim parecia viver um começo. Eu não sabia quem ele era, mas lamentei não ter tido a sorte de tê-lo conhecido antes. Embora não fizesse sentido algum, eu começava a entender o porquê dele ser chamado de amor e luz.

Ele ainda diria outras palavras. Pediria perdão para aqueles que o condenavam. Diria ter sede. Falaria com o rapaz e com a Senhora. Lançaria um doído lamento aos céus. Estranhamente afirmaria que tudo estava consumado. E, ao fim de três horas, soltou um grito que rasgou minha alma de um jeito que até hoje me perturba.

Embora nunca antes tivesse visto aquele homem, eu sentia que meu destino estava ligado àquela morte de um jeito profundo. Não sabia dizer como ou porquê, mas parecia que era por mim que ele fazia aquilo. Escutei um soldado dizendo que ele era o Filho de Deus. Só podia. O peso que ele carregou não parecia poder ser suportado por ninguém mais.

Fiquei tão transtornado que não lembro direito como foi descido da cruz. Recordo apenas que o corpo morto foi colocado no colo da senhora. As vestes daquela mulher de olhar único ficaram ensanguentadas e as lágrimas que ela derramou não pareciam ser só por ele.

Tomei a decisão de seguir de longe os que iam sepultá-lo. Escondi-me no jardim enquanto via o corpo ser preparado para o sepultamento. Vi a pedra ser rolada para selar a entrada da caverna. Adormeci e por sorte não fui encontrado pelos soldados que guardavam o sepulcro. Fiquei triste até o fundo da alma por aquele desconhecido extraordinário que com toda a certeza não merecia a morte que teve.

Afastei-me do sepulcro e fui à hospedaria. Lavei-me e comi uma ceia que parecia não ter sabor. O mais rápido possível voltei ao sepulcro, mas permaneci longe.... Os soldados aqueciam-se em torno de uma fogueira e gargalhavam como se nada houvesse acontecido. Eu os observava quando, um por vez, todos caíram desmaiados. De repente eu também estava sem forças e por mais que tentasse ficar desperto não conseguia.

Acordei muitas horas depois com a gritaria de algumas mulheres e a confusão dos soldados. A pedra havia rolado. Eu não sabia o que tinha acontecido e apressei-me mais uma vez em esconder-me. Os soldados foram embora.  Aquele jovem que eu tinha encontrado no dia anterior veio ao sepulcro acompanhado de um homem mais velho. Entraram e saíram atônitos. Quando vi que estava sozinho, resolvi entrar também. Vi os panos. Eu estava atônito!

Saí do túmulo e vi uma mulher chorando sozinha. De repente, dela aproximou-se alguém. Cheguei mais perto. Era Ele! Só podia ser! Ninguém olhava daquele modo. Embora seu rosto estivesse diferente, eu reconheceria em qualquer lugar. Além disso, lá estavam as chagas. 

Ela, por uma ordem dele, partiu apressada. E então, Ele virou-se para mim. Em um misto de alegria e temor, eu disse:

- Mestre!

Ele só me olhava. E eu sentia que me conhecia desde sempre. Ninguém sabia de mim como Ele sabia. Diante dele eu me senti pleno. De uma hora para outra, despareceu diante de meus olhos, mas de algum modo eu sentia que Ele permanecia comigo.

Ouvi então um barulho e percebi que os guardas voltavam acompanhados de muitas outras pessoas. Uma delas, gritando, dirigiu-se a mim:

- O que aconteceu aqui?

- Um começo, um novo começo. A Luz voltou ao mundo...



Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores

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