Por: Gustavo

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Você conhece a história da cigarra e da formiga? Resumindo: a cigarra passou o verão cantando, enquanto a formiga recolhia alimento para o inverno. A cigarra caçoava da formiga, que trabalhava enquanto ela se divertia. A formiga não dava ideia. Quando chegou o inverno, a cigarra foi bater na porta do formigueiro: estava com frio e com fome.

Conhecia? Lembrou? Um conto de mensagem clara, porém, esquecida.

Essa história é bem antiga. Vê-se então, que a previdência (não o benefício social, a virtude) é tema de reflexão desde que o ser humano é ser humano. Acho seguro dizer que o homem, de qualquer tempo, sempre demonstrou uma certa tendência a “viver o momento” sem se preocupar com o futuro. Acho ainda muito seguro dizer que o homem do nosso tempo é dos que mais facilmente cede a essa tendência.

Somos uma geração empurrada para o abismo da irresponsabilidade. Uma geração ensinada a viver o momento, sem se preocupar em construir o futuro. “A felicidade é agora”, dizem os outdoors – cujo verso, eu aposto, dizem “não se preocupe se ela não durar muito”. Eu aposto, também, que a cigarra da história tinha um Carpe diem tatuado na pata.

O instante nunca valeu tanto. Por tanto, a rotina nunca foi tão agonizante. Frequentemente imagino a mim e as pessoas que conheço vivendo num tempo em que (ou “num lugar onde”) a vida mais comum fosse (ou “seja”) a vida rural, o trabalho monótono da enxada, do plantio, do trato dos animais; os dias começando e terminando cedo; sem todo barulho, toda festa, toda tralha eletrônica que nos cerca. Surtaríamos (me incluo)!

Nossos tempos são tempos de uma cultura do instantâneo (de “instante”). Tudo corre, tudo é pra ontem. O ritmo do nosso tempo e do nosso ambiente é frenético, louco. A cidade nunca dorme – o slogan de uma metrópole que se poderia aplicar a todas. Por isso, cada instante é precioso e a nenhum se renuncia em vista de qualquer plano que dure mais de um mês, uma semana, uma noite.
É claro que exagero (com o intuito de fazer sentir o espírito da coisa). Ainda se encontra pessoas que deixam de ir a uma festa porque tem prova no outro dia. Que ficam com uma pessoa por muitos anos em vez de ficarem com muitas pessoas por algumas horas. Que abrem mão de pequenos mimos e confortos a fim de comprarem o sonhado carro ou a sonhada casa. Essas pessoas existem! Mas são cada vez mais raras e, por pressão do meio, experimentam cada vez mais o sentimento coletivo da agonia diante do “longo prazo”.

Um aspecto que nos diferencia dos outros tempos e potencializa nossa tendência ao agora: as possibilidades criadas por toda tecnologia que nós inventamos (de transporte e comunicação, principalmente) aumentaram o número de coisas que nós queremos fazer caber na vida. Isso, sem que nos tenham aumentado proporcionalmente o tempo dela. Nós fazemos muito mais coisas do que faziam as pessoas de algumas décadas e séculos atrás, e queremos fazer muito mais outras ainda.

Porque o número das coisas com que queremos preencher o tempo aumentou – sem que o tempo aumentasse –, elas precisam durar menos – para “dar tempo de fazer tudo”; quantas vezes não ouvimos ou dizemos a expressão?

Vivemos nossos minutos, nossas horas, nossos dias, nossa vida como se fossem um monte de pedaços soltos, desconjuntados. Cada parte do quebra-cabeça como se fosse a figura toda: “que cores bonitas, que formato bacana”, mas nos dizem nada de nada.

Quem quiser ser feliz precisa construir. E quem quiser construir algo precisa ser constante (≠ instante). Precisa ter hábitos firmes. Precisa saber renunciar às pequenas satisfações em vista da realização das coisas grandes. Precisa sofrer uns momentos para alegra-se por vários.

Quem quiser ser realizado profissionalmente, precisa ser bom no que faz; precisa saber estudar por horas e relaxar por minutos; trabalhar (e não enrolar) cinco ou seis dias para folgar um ou dois. Desligar o celular enquanto se dedica a uma atividade.

Quem quiser ser feliz de fato na sua vida afetiva, e viver mais que uns momentos de prazer com alguém, precisa saber aturar dias ruins, discordâncias, defeitos, contragostos. Isso para construir um amor que torne os bons momentos – inclusive os de prazer – muito mais intensos, profundos, significativos – e numerosos.

Quem quiser ser feliz consigo mesmo precisa ter controle da própria vida. Não caminhar na direção do vento, mas enxergar um caminho que valha a pena – expressão muito usada sem que nos demos conta do sentido: valer o sacrifício, valer o escorço. Escolher o caminho e segui-lo, nos dias que tudo – inclusive nossas vontades – nos quer empurrar para a direita, para a esquerda, para trás.

Não quero dizer com esse texto que se deva renunciar a felicidade de cada momento em vista de se chegar a uma felicidade que está sempre lá na frente – “quando eu...” – como uma miragem. “A felicidade não está no destino, mas no caminho”, mas no caminho TODO e não numa parte outra dele. Cada momento guarda sua parcela, seu pedaço, seu tijolo da felicidade; mas o edifício dela – a felicidade – é construído ao longo de uma vida, pondo cada um desses tijolos no seu devido lugar, não os largando desordenados pelo caminho.


Só se realiza quem entende que cada instante pode ser maravilhoso, mas nunca é um fim em si – o que dá sentido inclusive aos que não são tão bons assim. São, todos os instantes, parte de um conjunto. Por isso, feliz aquele que vive cada momento por sua vez e todos pela mesma razão.


Gustavo Cardoso Lima
Estudante de Jornalismo

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