Por: Alessandro
Foto: AP Photo/Nariman El-Mofty, via estadao.com.br

Ontem eu fui à Missa de Ramos. Exatamente a mesma celebração que ocorria nas igrejas coptas onde aconteceram os atentados terroristas. Eu estava com minha esposa e meu filho de três meses. Sentei próximo ao altar, local onde no templo da cidade de Tanta explodiu uma bomba que matou quase três dezenas de pessoas. Nesta missa, o padre, em uma inspirada homilia, falou sobre o poder salvífico do amor.

Para mim é fácil identificar-me com o sofrimento e com o sangue dos cristãos egípcios que morreram rezando. Não pertenço à mesma confissão cristã que eles, temos algumas divergências teológicas, mas estamos unidos na escuta do mesmo Mestre. Um Mestre que, lembramos na missa de Ramos, foi ignorado, perseguido e morto.


Sim, para mim é fácil identificar-me e solidarizar-me com os coptas. Mas creio que não é assim para muitos. Sei que não deveria ficar incomodado, mas senti um pouco com a indiferença e o silêncio que parecem ignorar ou desmerecer um sangue que a mim muito fala. Claro que o silêncio de muitos pode significar o respeito de quem não diz nada porque diante da tragédia não há nada a dizer. Eu mesmo não costumo fazer manifestações públicas sobre coisas do tipo. O que me incomodou foi o silêncio dos que sempre falam, dos que reclamam, muitas vezes com razão, da seletividade da indignação.


As mídias tradicionais não deram muita atenção ao ocorrido. E não apenas elas. Não houve hashtags dizendo “somos todos coptas” ou campanhas do tipo “pray for egypt”. Claro que a presença na internet pode significar uma solidariedade de momento ou um modismo. Mas esses fenômenos só acontecem para com aqueles com quem temos o mínimo de empatia. E é exatamente desta que senti falta. Dá a sensação de que o sofrimento destes cristãos é menos importante e que a violência que eles sofreram não é tida como injusta.


O sangue dos coptas não é mais importante do que o de qualquer outro grupo. Quem disser isto estará coberto de razão. Incomoda ver que para muitos parece que ele é menos significante.  Não digo que merecem uma atenção maior porque são cristãos. Gostaria apenas que a religião que professam não fizesse com que suas mortes fossem menos lamentadas e que a solidariedade que recebem fosse de menor monta.


Como disse, para mim é fácil solidarizar-me com eles. Sinto-me como um deles. Creio, contudo, que a compaixão não deve ser ofertada apenas àqueles com quem a identificação é fácil, mas a todos os sofredores que atravessam nosso caminho. Por isso identifico-me com os que denunciam a indiferença ao sofrimento de tantos e tantos grupos que são invisibilizados. Por isso entristeço-me tanto com os que fazem essas denúncias e silenciam, e assim invisibilizam, diante da dor de um grupo em específico. E eu poderia dizer: de uma minoria. Basta pesquisar um pouquinho sobre os coptas para ver que é isso que eles são.


Hoje rezo pelos cristãos coptas. E não só por eles, mas também pelos que a eles fizeram tanto mal. No início mencionei que assumo como meu Mestre o mesmo que os coptas chamam de seu Mestre. E foi exatamente Ele que ensinou que devemos rezar pelos que nos perseguem.  Não poderíamos ser fiéis a seus mandamentos se assim não o fizéssemos.  Contudo, parece que os seguidores egípcios de Jesus de Nazaré devem acrescer outro grupo a suas orações: aqueles que os ignoram...



Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores

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