Por: Alessandro
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Não sabemos muito sobre a vida dos primeiros filósofos. Muitos deles não escreveram nada e grande parte das obras daqueles que escreveram perderam-se no tempo. A maior parte do conhecimento que temos sobre suas ideias vem de fontes indiretas. O mesmo pode ser dito de suas vidas. Algumas dessas fontes trazem algumas pérolas, histórias que provavelmente são lendárias, mas que nem por isso deixam de ser muito interessantes.

Uma dessas lendas diz que Tales de Mileto, o primeiro dos filósofos (aquele que falava que a água era o princípio de todas as coisas), gostava muito de observar as estrelas. É dito mesmo que ele chegou a prever um eclipse. Dado esse gosto, Tales passava muito de seu tempo contemplando os céus. Pois bem, um belo dia de tanto ficar olhando para as estrelas, acabou tropeçando num buraco que estava à sua frente e morreu.

Pois bem, é claro que tal história tem uma moral por trás. E a moral é: quem descuida das coisas práticas para ficar pensando naquilo que não está no “aqui e agora” corre sérios riscos. Há sabedoria nessa lição...Não é incomum encontrarmos pessoas que perdidas em seus pensamentos e imaginação chegam a deixar de lado coisas que são importantes.

Quem anda com a cabeça nas nuvens costuma esquecer que o mundo em que vive não é aquele que imagina. Que o universo não gira em torno de suas vontades. Não é incomum uma pessoa assim hipervalorizar coisas e situações etéreas e imaginárias em detrimento das pessoas concretas que estão ao seu redor. Algumas vezes há um egoísmo em tal atitude, outras vezes apenas imaturidade. Há ainda aquelas pessoas em que a alienação é fruto de uma cegueira difícil de vencer. Quem vive assim acaba por tropeçar em buracos que seriam facilmente evitados caso dedicasse um pouco mais de interesse àquilo que está a sua volta.

Apesar da verdade que encerra, devo dizer  que essa lição de moral me incomoda muito quando aplicada ao bom e velho Tales de Mileto. Não julgo que o primeiro dos filósofos fosse um imaturo;  imagino também que não fosse um egoísta. Gosto de pensar que seu tropeço no buraco veio da crença de que estrelas eram algo pelo que valia a pena morrer.

Antes que  o leitor desista de continuar a leitura por me considerar um tanto quanto louco, vou tentar explicar um pouco melhor. Tudo o que Tales de Mileto fez,  só foi possível porque ele desenvolveu uma atitude de admiração por aquilo que estava à sua volta. O mundo era algo fantástico e ele queria entende-lo. Ele continuava perguntando quando todos paravam de perguntar. Ele continuava admirado quando todos diziam “já está bom”. Essa atitude impulsionou sua vida e fez com que ele gerasse um legado que nos marca até hoje. Para ser mais direto: Tales de Mileto encontrou um grande ideal. E todo ideal pelo qual valha a pena viver é um ideal pelo qual vale a pena morrer.

Tales morreu porque encontrou algo que era maior que ele e para o que valia a pena direcionar o seu olhar. Penso que mais triste do que tropeçar em um buraco por observar as estrelas é nunca ter visto as estrelas porque se passou a vida olhando para o chão procurando buracos.

Encaro a lenda do homem que morreu por olhar para as estrelas como uma parábola que vem lembrar que nem só de pão o homem vive. Que há no ser humano um anseio por algo que vai além dele. E que é na correspondência a esse anseio que está nossa verdadeira grandeza.

A parábola embora muito boa,  possui seus limites. E o principal limite, a meu ver,  é que ela opõe o chão e as estrelas. Ou seja, diz que quem observa as estrelas dificilmente conseguirá andar  direito. Tal tese não está apenas um pouco equivocada, provavelmente está completamente errada e a verdade encontra-se na posição oposta. Para comprovar isso basta lembrar que muito antes dos GPS, as estrelas que guiaram os navegantes.  Foram esses homens dos mares os primeiros a nos ensinar que o conhecimento dos céus é fundamental para navegar sobre os oceanos e mesmo caminhar sobre a terra.

Para corroborar essa forma de pensar é interessante lançar o olhar para outras histórias sobre Tales de Mileto que chegaram até nós. Essas histórias dizem que ele não morreu no buraco (imagino que possa ter apenas torcido o pé), mas que continuou vivendo e foi um cidadão muito útil à sua cidade Mileto (sim, esse é o  nome da cidade, não o sobrenome do filósofo). Se dermos crédito às duas histórias, podemos chegar à conclusão que o olhar para as estrelas tornou o primeiro filósofo apto a ver de maneira mais profunda as situações do dia a dia. Ou, assim como Chesterton em outras situações, podemos intuir que “não há nada mais prático que uma boa teoria”.

Esquecer o chão é um risco. Deixar de ver as estrelas é outro ainda maior. Tais riscos alternam-se em nossas histórias. Existem aqueles momentos em que inflamados por uma descoberta esquecemos nossos limites e pecamos pela imprudência. Há, no entanto, aquelas situações mais tristes onde nos aburguesamos e nos contentamos apenas com o que é pequeno, abdicamos dos ideais por preguiça, cansaço ou medo.

Nossa realização e o bem que podemos fazer ao mundo dependem de não perdemos de vista nossas estrelas. Podemos e devemos ter os pés no chão e tomar cuidado com os buracos. Mas,  para um peregrino, mais grave que um tropeço em uma vala pelo caminho é a perda  da rota. E a  rota minha gente, por mais que trilhemos caminhos na terra, só o céu é capaz de nos dar.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

1 comentários:

Anônimo disse...

espetacular!
que possamos ser guiados pelo céu - metaforicamente ou não - e caminhar em terra firme.

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